A tradição como presença, corpo e continuidade é o eixo que move “Herança Ancestral”, novo single de Negadeza que chega às plataformas no dia 6 de março. Mais do que uma canção, a faixa se apresenta como manifesto afetivo e espiritual de uma linhagem que tem no coco pernambucano não apenas um gênero musical, mas um território de pertencimento.
“Foi minha avó que me ensinou / com sua reza e seu axé”, entoa a artista logo nos primeiros versos. A letra evoca o aprendizado transmitido no cotidiano, nas rodas e nos rituais domésticos, onde música e espiritualidade não se separam. “Toda essa força e fé / vem de quem veio antes de nós”: o canto transforma herança em pulsação viva, reafirmando o matriarcado que sustenta sua trajetória. Negadeza é filha de Aurinha do Coco e neta de Selma do Coco, duas mestras fundamentais para a história do coco em Pernambuco.
A música inaugura o EP homônimo, previsto para abril, com cinco faixas — em sua maioria autorais — e produção musical assinada por Zuri Ribeiro, filho da artista, de apenas 15 anos. O gesto de colocar o próprio filho à frente da produção não é apenas simbólico: trata-se de um elo geracional que reafirma o caráter familiar e orgânico do projeto.
“É família, é futuro, é o coco respirando em outra geração.”
—Negadeza
Em “Herança Ancestral”, a percussão conduz a narrativa como correnteza. Bombo, pandeiro, ganzá, agbê e congas se entrelaçam a respiros rítmicos que sugerem a circularidade da roda. A batida constante cria a sensação de movimento coletivo, enquanto a voz da artista alterna doçura e vigor, convocando: “No toque do pandeiro, cantem comigo essa oração”. O canto é convite e partilha — uma reza que se faz no corpo inteiro.
O refrão insiste na imagem do rio: “No olhar delas vi um rio / correnteza que não tem fim”. A metáfora traduz a permanência das mulheres que vieram antes, suas histórias de luta e brilho correndo agora “dentro de mim”. A canção constrói, assim, uma ponte entre memória e presente, reafirmando que tradição não é passado cristalizado, mas força que se atualiza a cada batida.
Radicada atualmente no Rio de Janeiro, Negadeza nasceu no Recife e foi criada em Olinda, onde viveu grande parte da vida difundindo as tradições que herdou. Com mais de 30 anos de carreira, tornou-se referência na percussão brasileira, especialmente no pandeiro, e colaborou com nomes como Lenine — de cuja banda atualmente faz parte — além de Naná Vasconcelos, Dominguinhos, Gilberto Gil e Alceu Valença, entre muitos outros. Sua trajetória combina palco, pesquisa e transmissão de saberes, consolidando-a como guardiã e renovadora do coco.
Já Zuri Ribeiro cresceu entre rodas, estúdios e mestres da cultura popular. Afilhado de Hermeto Pascoal, ele assina a produção musical do EP e também executa diversos instrumentos na gravação — da rabeca ao trompete, do baixo ao violão. A parceria entre mãe e filho estabelece um diálogo de escuta mútua: de um lado, a raiz; de outro, a experimentação de timbres e camadas sonoras que expandem o coco sem descaracterizá-lo.

Gravado no Estúdio Lontra, com mixagem e masterização de João Ferraz, o single traz ainda produção executiva de Dora Motta, assistência de Fritz Ribeiro, fotografia de Marcella Saraceni e design de Iramaya Rocha. A construção coletiva reforça o espírito comunitário que marca o projeto.
Foi minha avó que me ensinou
Com sua reza e seu axé
Que toda essa força e fé
Vem de quem veio antes de nósÉ herança no meu coração
Sou filha do vento
Sou folha no chão
Carrego no peito
Essa tradição
No toque do Pandeiro, cantem comigo essa oraçãoNo olhar delas vi um rio
Correnteza que não tem fim
História de luta e brilho
Que hoje correm dentro de mimNo olhar delas vi um rio
Correnteza que não tem fim
História de luz e brilho
Que hoje corre dentro de mim
Ao lançar “Herança Ancestral” logo após o carnaval, Negadeza reafirma que o ciclo festivo não se encerra na Quarta-feira de Cinzas: ele se prolonga na memória, na espiritualidade e na continuidade das tradições populares. Seu novo trabalho aponta para um Brasil profundo, onde o coco de roda permanece como gesto de resistência e celebração — chão e horizonte ao mesmo tempo.
Se a tradição é presença, como afirma a artista, “Herança Ancestral” é a prova sonora de que o passado não ecoa distante: ele pulsa agora, no toque do pandeiro e na voz que convoca a roda a seguir girando.